Agi Strauss
Episódio 6: 29’41’’
Vinheta de abertura
Leonardo Dourado:
Olá, a série de podcast Canto dos Exilados está de volta em sua segunda temporada. Eu sou o jornalista Leonardo Dourado.
Kristina Michahelles:
Este podcast apresenta as histórias dos que fugiram da Segunda Guerra Mundial e foram acolhidos no Brasil, deixando aqui um vasto legado à nossa cultura, às artes e às ciências. Eu sou Kristina Michahelles.
Leonardo Dourado:
Kristina também é jornalista, tradutora, roteirista e diretora do Museu Casa Stefan Zweig de Petrópolis, instituição cultural que apoia esta iniciativa.
Kristina Michahelles:
Sob a inspiração de Alberto Dines, biógrafo do escritor austríaco Stefan Zweig que viveu seus últimos meses no Brasil, o Canto dos Exilados pesquisa e preserva a memória daqueles refugiados.
Leonardo Dourado:
Esta segunda temporada do podcast Canto dos Exilados tem o patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS.
Passagem
Kristina Michahelles:
O episódio de hoje apresenta a história da artista plástica viennense Agi Straus. Seu nome de nascimento era Agathe Deutsch. Ela chegou ao Brasil com 12 anos. Em 2025 foi feito o inventário de todas as suas exposições ao longo da vida e a lista completa entre individuais e coletivas no Brasil e no exterior atinge o impressionante número de 207. A última foi em 2023 no Museu Judaico de São Paulo, um ano depois de Agi ter nos deixado.
Leonardo Dourado:
Agi expôs muito no Brasil, mas não só. Sua estreia foi em 1955, no Instituto dos Arquitetos do Brasil de São Paulo. Dois anos depois lançou uma mostra individual em Nova York e não parou mais. Nos anos que se seguiram vieram Japão, Itália, Alemanha, Áustria e Suíça, sendo que em alguns desses países ela expôs em mais de um local.
Kristina Michahelles:
O curador e crítico de arte Paulo Herkenhoff assina um dos textos de abertura do mais recente livro sobre Ags Strauss, chamado A (Flora) Tropical. Paulo, ainda vamos detalhar a vida da artista aqui no podcast e o currículo inicial para quem não a conhecia já impressiona, mas gostaríamos que você comentasse a qualidade do trabalho da Agi.
Paulo Herkenhoff:
(A Agi Straus) É uma falha da Bienal das Amazonas não tê-la ainda incluído como uma das formadoras de uma visão da flora amazônica. Agi Straus precisa estar nas coleções do Pará. Precisa estar no Museu Goeldi, na coleção amazoniana da Universidade Federal do Pará. São instâncias que estão pensando a arte no Pará e a coleção amazoniana da Universidade Federal do Pará tem junto um programa de estimular seus alunos de graduação, pós-graduação a escreverem, investigarem sobre os artistas do acervo.
Leonardo Dourado:
Certo, muito obrigado por enquanto. Agora vamos ouvir a própria Agi Straus. Em 2016 nós produzimos a série que tem o mesmo nome do podcast Canto dos Exilados para TV por assinatura. Na época, acompanhamos um dia da artista em seu ateliê, em casa, e ela falou sobre sua infância, lembrou detalhes da fuga da Áustria e do início das perseguições a
crianças judias nas escolas. O ano era 1938.
Agi Straus:
Primeiro eu fui na Schwarzwaldschule, que era perto da minha casa e era uma escola quase de arte. Tinha canto, tinha piano, tinha tudo e um dia entrou a professora, olhou assim e disse: Agi, você levanta.
-
Pois não.
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Não vai sentar que você é judia, judeu não tem direito a sentar.
Eu reagi tão mal, eu gritei, o quê? Levantei e corri para a loja do meu pai e contei, ele disse: não dá mais, é hora realmente de partir. Aí meu pai veio e disse: nós vamos fugir amanhã à noite. Entramos no trem, nos despedimos de um monte de gente, meus pais choraram, eu também. Tinha um problema que meu pai ficou muito assustado no trem indo de Viena pra Paris. Ele achou que talvez os nazistas iam tirar - eu tinha dentes pra frente e tem muito judeu que pôs joias dentro - e ele achou que podia vir um e me pegar por causa disso, aí ele com um canivete de bolso ele tirou… me machucou terrivelmente, sangrou, sangrou, ele pediu pra fechar a boca. Aí parou o trem numa estação. Meu pai teve um ataque, nunca vi ele assim, ficou branco, quase morre. E entra um nazista:
-
Essa criança é sua filha? Ah, ela está dormindo?
Eu fiz de conta.
-
Então, tudo bom, foi embora.
Kristina Michahelles:
Nossa, que trauma terrível, que coisa mais impressionante essa história, isso marca
uma criança para o resto da vida. Quem nos acompanha aqui no podcast é a filha de Agi, Miriam Straus. Miriam chamou a si a missão de preservar o acervo da mãe, ela fez o trabalho de formiguinha de catalogar todas as exposições, acompanhou o processo de produção do livro mais recente, e ela mesma teve surpresas ao longo dessa organização dos arquivos. Miriam, muito bem-vinda, resuma aqui para os nossos ouvintes como foi esse seu trabalho e o que te surpreendeu?
Miriam Straus:
Obrigada, é um prazer estar aqui. Foi um trabalho bem complicado porque minha mãe não era nada organizada nessas questões de guardar, de arquivar as exposições, enfim, a trajetória profissional dela. Pelo contrário, às vezes ela guardava uma pasta ou punha algumas coisas em caixas e depois isso se perdia porque minha mãe mudou muito de endereço e as coisas acabavam se perdendo. Minha mãe faleceu em 2022. Já antes disso eu vinha tentando organizar esse arquivo. Eu já tinha noção, claro, de que tinha muita coisa, mas me surpreendeu muito quando eu consegui reunir finalmente as coisas que estão nesse livro. É muita coisa. Mas eu acho que ainda tem mais e foi muito surpreendente porque minha mãe realmente trabalhou muito, fez muita coisa, e eu fiquei muito surpreendida com a quantidade de gente boa que escreveu sobre ela, mas o que me surpreendeu mesmo, e que foi a cereja do bolo, foi esse texto que está no livro, a apresentação do Paulo Herkenhoff, um texto sensível. Ele entendeu a Agi perfeitamente. Eu fiquei muito contente. Para mim tem sido um trabalho difícil, mas prazeroso.
Leonardo Dourado:
Então deixa eu aproveitar o gancho porque me ocorre perguntar o seguinte: quando a gente fez a série para a televisão - fizemos o perfil da Agi em 2015, a série foi ao ar em 2016 - a gente filmou lá na casa dela e havia muitas obras. O que aconteceu com esse acervo de obras? Isso está preservado em algum lugar?
Miriam Straus:
Sim, nos últimos 20, 25 anos talvez, minha mãe trabalhou e morou no mesmo lugar. Na verdade, minha mãe nunca teve um ateliê separado de onde morava. A pintura para minha mãe fazia parte da vida dela, ela não separava as coisas. Então, esse apartamento no Paraíso é um grande espaço onde ela deixou toda a obra mais recente dos últimos 20 anos, e esse apartamento está montado exatamente do jeito que ela deixou quando faleceu em 2022.
Kristina Michahelles:
Um estudioso, um pesquisador poderia visitar esse acervo?
Miriam Straus:
Até poderia. Eu tenho alguns impedimentos agora porque minha irmã mais velha está
morando lá, o apartamento está sendo usado, ela está com alguns problemas de saúde então precisava ser planejado, mas não teria problema não, está tudo organizado. Esse é um trabalho também que eu me incumbi de fazer, mas o interessante é que a obra foi fotografada com minha curadoria, as coisas melhores dela que estão comigo, estão documentadas fotograficamente.
Leonardo Dourado:
Ótimo, isso é muito importante. Eu vou agora aproveitar para entrar um pouquinho na trajetória da Agi aqui no Brasil porque tem uma particularidade que a distingue de outros refugiados. Ela passou obviamente a maior parte da vida em São Paulo, foi estudar no Masp em 1952 com Poti, Aldemir Martins e Darell e além disso que você já falou sobre escultura, ela trabalhou com técnicas de afresco com o Gaetano Miani, criando com ele um grande afresco que existe até hoje lá no Palácio do Café e aprofundou-se justamente em escultura com outro exilado, o polonês Zamoiski. Isso é muito importante, mas ela não se limitou a ficar no Sudeste. Foi para o Norte, para o Nordeste, vivendo em Belém, São Luís, Salvador e, aliás, em Recife, onde ela morou oito anos com o segundo marido. É claro que isso influenciou o seu trabalho. Ouça como ela respondeu a minha pergunta sobre isso na época, quando a gente gravou a série de TV
Leonardo Dourado:
Mas que influência teve na sua pintura essa ida pro Nordeste?
Agi Straus:
Boa, excelente. Não olhei nada porque nunca olho os outros, mas as plantas, as frutas, a terra, eu comecei a usar terra, as plantas de lá, colei uns girassóis ... as plantas em geral.
Kristina Michahelles:
Então Miriam - e por falar em influências no trabalho da Agi - qual foi a importância que teve nesse quesito o segundo marido da sua mãe, o paulista Luís Carlos Pires Sampaio?
Miriam Straus:
Bom, teve uma mudança radical. Minha mãe quando conheceu o Luís foi um encontro de amor à primeira vista, já muito intenso. Minha mãe estava casada há 16 anos e já tinha três filhas. Acho que eu tinha uns oito, a minha irmã nove, dez, mais ou menos e era um casamento já, assim, morno, bem convencional. Quando ela conheceu o Luís, ele era o oposto do meu pai, minha mãe ficou enlouquecida. E logo em seguida ela largou tudo e foi morar com o Luís. Ele era uma figura fascinante. Um homem muito culto, um aventureiro.
E eles foram morar em Ubatuba. Logo de cara minha mãe se mudou para Ubatuba e lá eles começaram uma vida em comum e ficaram por algum tempo. Minha mãe sempre trabalhando. Foi uma mudança financeira impressionante porque o Luís era uma pessoa que não tinha nenhuma estabilidade financeira, era um homem de altos e baixos.
A Agi veio impregnada de uma cultura europeia e com o meu pai ela continuou com essa influência da cultura europeia. Ela lia Goethe, Schiller em alemão, lia muito pouco em português e com o encontro com o Luís essa coisa mudou radicalmente e ele, como eu disse, era um homem muito culto e trouxe a literatura brasileira para a Agi. A Agi começou a ler Graciliano Ramos, tomou contato com a poesia de Carlos Drummond de Andrade ou Manuel Bandeira e principalmente com a poesia do Fernando Pessoa. E isso mudou completamente a visão que ela tinha do mundo. O Nordeste foi o Brasil profundo de que ela tomou conhecimento, imagina isso na década de 1960, no auge da ditadura. E o pessoal estava trabalhando muito com muita efervescência em Recife nessa época.
Leonardo Dourado:
Tem um outro detalhe que eu acho interessante e que vai fazer avançar o nosso podcast, é que além da importância do Nordeste tem a questão do amor dela pelas plantas. A gente vai rodar mais um trechinho aqui da Agi Straus sobre isso e na sequência nós vamos perguntar para o Paulo sobre essa questão.
Agi Straus:
Sempre gostei de plantas, desde pequena quando estava no bosque de Viena eu pegava Tannenzapfen, não sei como se chama isso, que cai da árvore. Eu fiz grandes pacotes com flores, com plantas e conheço todas as plantas de Viena e daqui também de tanto que eu gosto. Mesmo as árvores, mas aí eu uso madeira, uso o que achava na praia, principalmente conchas. Tudo começou em Recife.
Kristina Michahelles:
Esse Tannenzapfen a que ela se refere é o nosso pinhão, mas Paulo, muito prazer. No seu texto de abertura do livro A (Flora) Tropical está escrito separadamente A (Flora) Tropical, você diz que a artista criou uma flora agi-strausiana de flores exóticas, “ex óticas” separado, assim mesmo, separando o prefixo “ex” de “óticas”. Explica um pouquinho esse conceito relacionado à fase botânica da Agi Straus.
Paulo Herkenhoff:
Eu tenho que ampliar a discussão porque eu deveria dizer: de uma flora hebraica brasileira. Se nós pensarmos em três nomes, a Agi fica no meio entre o Burle Marx, ela própria e a Marília Kranz que produzia paisagens cariocas que remetiam ao lago da Tarsila, que no entanto a flora da Marília Kranz era mais erótica e que me lembra um pouco de um erotismo de grande qualidade estética judaico.
Eu vou então agora fazer uma mudança de 180 graus, inesperada, fazendo uma pergunta: o que seria da cultura brasileira sem os artistas judeus imigrantes? Eu começaria, por exemplo, pela literatura. Nós temos de Márcio de Sousa no Norte a Moacyr Scliar no Sul. Depois nós temos também um viés da relação entre arte e infância em que a Agi ilustra livros infantis em plena efervescência das escolinhas de arte do Augusto Rodrigues, que depois vai nos anos 80 e 90 passar para Evelyn Ioschpe o Instituto Arte na Escola. Então se o povo judeu é o povo do livro, nós estamos falando de uma criança judia que participa de um povo do livro. Agi entendeu isso, Evelyn Ioschpe também. São essas questões que me comovem.
O que seria, por exemplo, da gravura brasileira sem Fayga Ostrower que por sua vez cria uma estirpe de gravadoras brasileiras com a Anna Bella Geiger, que por sua vez vai ser uma das maiores professoras de arte do Brasil a partir da década de 70 e está vivinha da silva e trabalhando e pensando etc.
Agi pensa o Brasil tanto quanto alguns fotógrafos importantíssimos, judeus que para aqui vieram e criaram um Brasil novo. Eu vou citar três, Thomas Farkas, Alice Brill, Claudia Andujar com a descoberta do Brasil indígena e Kurt Klagsbrunn, um austríaco que deixou mais de 100 mil imagens sobre o Brasil de norte a sul. Então nós estamos falando de olhares descobridores do Brasil.
E nós poderíamos pensar em Agi Straus a partir também das suas flores carnudas. Carnuda era o termo que Mário Pedrosa usou para a pintura branca muito espessa do Manabu Mabe - e aí já vemos uma intersecção entre a judia austríaca Agi e o nipo-brasileiro Mabe. A selva amazônica une Agi Straus a Flávio Shiró que hoje está com 98 anos de idade.
Leonardo Dourado:
Míriam, a sua participação aqui é muito importante também para que a gente tenha um pouco do lado humano da Agi Straus. Vou direto ao ponto, a Agi era namoradeira? Ou melhor, não responda ainda, vamos ouvir o relato dela sobre o tema que depois você comenta, ok?
Agi Straus:
Eu era muito namoradeira. Não sou mais agora, não me permito (risos), olha a Miri rindo. Porque alguém pergunta: quantos maridos e amores você tem? Aí a minha filha do meio, é muito engraçado, ela abre um rolo assim ... 50. Eu disse: não é possível, será?
Leonardo Dourado:
Míriam, então agora eu te pergunto se você confirma, faz esse parêntese porque é um detalhe interessante da vida pessoal dela. Um pouco você já passou por esse tema e depois você pode engatar resumindo a questão do processo de trabalho da Agi, como era?
Miriam Straus:
Isso era uma brincadeira dos namorados que as filhas faziam porque minha mãe era uma figura fascinante, era belíssima. Quando ela entrava nos ambientes não tinha quem não olhasse,...era uma atração imediata de homens, mulheres, crianças, qualquer ser vivo se atraía pela alegria e pela beleza física também, e minha mãe sabia disso é claro, e ela adorava jogar, fazer o jogo de sedução. Então realmente ela tinha muitos pretendentes e a gente brincava e tentava anotar os amigos, entre aspas, que ela acabava trazendo às vezes em casa e vinham todos arrumadinhos, com roupa de domingo.
Leonardo Dourado:
E fala um pouquinho sobre o processo de trabalho dela.
Miriam Straus:
Minha mãe nos últimos anos trabalhou sempre em cima de uma grande mesa, ela sempre quis trazer uma realidade inventada por ela que tinha a ver com a natureza que ela tentava trazer para as telas e que usava normalmente, frequentemente restos que o mar trazia, conchas, areia, terra, plantas secas que ela colava nas telas ou numa prancha de madeira e depois de coladas ela começava a trabalhar com tinta acrílica - no começo era óleo porque não se usava tanto acrílico - e aí as coisas ficavam surgindo ao redor daquilo que ela tinha colado, eram coisas que agradavam a ela, ela queria que revivessem através do trabalho dela.
Kristina Michahelles:
Míriam, maravilhoso esse seu depoimento porque traz para nós essa artista tão importante, nós gostaríamos muito de agradecer a sua participação no nosso podcast de hoje. Nós vamos chegando ao final desse episódio sobre a artista austríaca Agi Straus, nesse podcast chamado Canto dos Exilados que está na segunda temporada.
Leonardo Dourado:
O programa de hoje teve pesquisa e apuração nossa e suporte do Dicionário dos Refugiados do Nazifascismo no Brasil e contou com as participações de Miriam Straus e do crítico de arte Paulo Herkenhoff, a quem a gente agradece mais uma vez. No apoio à produção tivemos João Maurício no Rio de Janeiro e Marcos Vita e Giovani Direnzi em São Paulo. Gravações e parte técnica, Estúdio Ipiranga no Rio de Janeiro.
Kristina Michahelles:
A montagem é do Fabiano Araruna e é dele também a trilha sonora. O roteiro a quatro mãos é meu, Kristina Michahelles, e do Leonardo Dourado. Ambos fizemos também a apresentação.
Leonardo Dourado:
E no site www.podcastcantodosexilados.com.br é possível ver a transcrição completa de todos os episódios das duas temporadas da série para portadores de deficiência auditiva. O design do site é da Luana Aguiar, até a próxima.
Fim do episódio 6 - Agi Straus

