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Fayga Ostrower
Episódio 4: 33’32’’

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Vinheta de abertura


Leonardo Dourado:
Olá, estamos no ar com a série de podcast Canto dos Exilados, agora em sua segunda temporada. Eu sou o jornalista
Leonardo Dourado.


Kristina Michahelles:
Este podcast apresenta as histórias dos que fugiram do horror da Segunda Guerra Mundial. Deixaram tudo para trás e recomeçaram sua vida do zero. Encontraram abrigo no Brasil e, em contrapartida, deram grande contribuição à nossa cultura no campo das artes e das ciências. Eu sou Kristina Michahelles.


Leonardo Dourado:
Kristina também é jornalista, tradutora, roteirista e diretora do Museu Casa de Stefan Zweig de Petrópolis, instituição cultural que apoia esta iniciativa.


Kristina Michahelles:
Sob a inspiração de Alberto Dines, biógrafo do escritor austríaco Stefan Zweig, que viveu seu último ano no Brasil, o Canto dos Exilados pesquisa e preserva a memória daqueles refugiados. O programa de hoje conta a história e discute a obra da artista plástica Fayga Ostrower que foi criada na Polônia.


Leonardo Dourado:
Esta segunda temporada do podcast Canto dos Exilados tem o patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, por meio da Lei Municipal da Cultura, Lei do ISS.


Passagem


Fayga Ostrower:
Se fosse necessário juntar todas as exigências, digamos, para que se forme uma obra de arte, eu diria que a qualidade necessária seria a adequação, a justeza, a adequação entre forma e conteúdo. As coisas têm que se corresponder plenamente, de tal modo que as coisas serão justas. E o justo é o justo.


Leonardo Dourado:
Essa aí foi a voz da Fayga Ostrower na gravação de uma aula em 1996, em Belo Horizonte. O título, Viagem Através da Arte. Sim, porque essa multiartista, além de gravadora, pintora, desenhista, ilustradora e teórica da arte, gostava de dar aula para públicos variados, jovens, mais velhos, especialistas e leigos.


Kristina Michahelles:
Para começar a discutir a obra de Fayga e decifrar seus pensamentos, nós convidamos outro grande artista, o pintor e ex-diretor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage do Rio de Janeiro, Luiz Aquila. Aquila, eu queria retomar a ideia da Fayga apresentada logo no início do programa de hoje. Ela sublinha bem o conceito de justeza na obra de arte. O justo é o justo, diz ela. Vamos ouvir a conclusão da Fayga e em seguida eu tenho uma pergunta para você.


Fayga Ostrower:
Se alguma coisa é justa, não precisa ser mais justa do que justa. É um absoluto em si que não precisa ser mais, quer dizer, nem mais nem menos. É isso que importa na arte, que as coisas sejam autênticas, verdadeiras, que elas sejam sentidas como justas nesse sentido.


Kristina Michahelles:
Então, Aquila, como é que você interpreta essa fala da Fayga, essa separação entre o essencial e o supérfluo, se refere apenas à composição do quadro e do artista ou tem um sentido mais profundo?


Luiz Aquila:
Primeiro, eu queria agradecer estar aqui, porque é uma oportunidade que se dá ao artista de falar sobre arte, quer dizer,
você entregar o palanque ao artista. Fayga foi uma artista que usou muito bem esse palanque, então você abre o espaço
e só tem um especialista que fala e o outro que faz, então fica uma dicotomia nisso. Eu acho muito bom estar aqui,
uma honra estar aqui com a Noni, que eu conheço há tanto tempo de nome, nunca tive oportunidade de conhecer.
A questão da justeza com a Fayga é muito boa, o trabalho dela ilustra isso. Quando Fayga usa a rudeza da madeira
e a delicadeza da cor e a delicadeza da transparência, dentro dessas contradições, ela está conseguindo uma síntese que
é muito interessante. Então a cor que te leva num sentimento e numa atmosfera lírica é cortada pela madeira arrancada,
eu acho que Fayga trabalhava com compensado, né?


Noni Ostrower:
Trabalhava com diversos tipos de madeira.


Luiz Aquila:
Mas bastante compensado, porque você sente assim que ela puxou a madeira e a madeira veio com suas ranhuras e com suas farpas, e depois ela vem com uma cor muito lírica por cima disso. A justeza na arte não é a unidade absoluta, é a conversa com as diferenças que mantém a dinâmica, se você tiver a unidade absoluta você tem uma coisa completamente estática, e Fayga sabe trabalhar muito bem com isso.


Leonardo Dourado:
Bem, então agora um resumo da história da vida da artista. Fayga fugiu da Alemanha para onde a família judia havia se mudado aos 13 anos. O pai era um pequeno comerciante e correu para a Bélgica onde tinha parentes quando foi chamado a depor pela polícia nazista. Fayga era a irmã maior de quatro irmãos e por isso ela teve a incumbência de ajudar a mãe na travessia a pé pela floresta à noite com um grupo clandestino, com todo cuidado para que não fossem descobertos.


Kristina Michahelles:
Tudo ia muito bem até que o pequeno David, o irmão de seis anos, começou a cantarolar achando que era um inocente passeio. Passado o susto, Fayga foi encarregada de comprar os bilhetes para a Bélgica, já que estudava francês e conseguia se comunicar também nessa língua. Alguns momentos de tensão daquela jornada seriam lembrados até a vida adulta.


Leonardo Dourado:
Frimeta, a mãe e as quatro crianças conseguiram acomodações na terceira classe do navio Josephine Charlotte, de Antuérpia para Santos. O importante era sair da Europa. Fayga passou a viagem toda desenhando e passou a ganhar chocolates dos passageiros e da tripulação em troca dos retratos que produzia, já com um expressivo traço para sua idade.


Kristina Michahelles:
Em abril de 1934, a família chega e vai morar em Nilópolis, um subúrbio do Rio de Janeiro. Ali, na Baixada Fluminense, havia uma comunidade judaica que ajudava os deslocados da guerra. Fayga foi trabalhar como auxiliar de escritório. Tomava o trem do subúrbio às seis e dez da manhã e voltava para casa à noite. Graças ao alemão, ao francês e ao inglês, chegou a secretária-executiva do presidente da General Eletric do Brasil. Mas nas horas vagas, fazia o que mais gostava, desenhar.


Leonardo Dourado:
Anna Leonor, também conhecida como Noni Ostrower, é filha da Fayga e é a pessoa que tem dedicado sua vida à preservação do acervo da artista. Como vocês viram, como o Aquila falou, ela já está aqui no estúdio com a gente e ela vai nos ajudar agora nesse mergulho no universo de Fayga. Noni, a família era pobre, mesmo assim sua mãe foi corajosa o suficiente para buscar o que lhe trazia felicidade, que era o caminho da arte. Como é que você resumiria esses primeiros anos no Brasil?


Noni Ostrower:
Olha, eu imagino que foram anos muito difíceis, porque a família continuava muito pobre, minha mãe foi a primeira a parar de estudar para trabalhar e depois todos os outros irmãos também tiveram que parar de estudar para trabalhar. Mas melhorou um pouco a situação quando eles vieram para o Rio. Eles moravam em Nilópolis e vieram para o Rio. Nessa época, minha mãe trabalhou em vários locais, ela dizia que começou como office girl, ela varria escritório, fazia cafezinho e tal, mas pelo fato dela conhecer várias línguas estrangeiras, começou a mudar de emprego e foi melhorando de salário.


Nessa época, mesmo trabalhando em vários empregos, ela sempre continuava desenhando e fazia um curso de modelo vivo na Sociedade Brasileira de Belas Artes, na Lapa, no Rio de Janeiro, depois do trabalho. Depois, chegou a secretária executiva de uma multinacional, só que ganhava muito bem e aí viu um anúncio de um curso de Artes Gráficas na Fundação Getúlio Vargas - e isso foi em 1946 - ela já estava casada com meu pai e ela decidiu então fazer esse curso. Ela teve que largar o emprego, porque era um curso de horário integral e meu pai nessa época conseguia sustentar o casal, então ela imaginou que poderia a qualquer momento voltar a conseguir um bom emprego. Ela foi fazer o curso, teve aulas com Tomás Santa Rosa, com Leskoschek, com Carlos Oswald e com Hanna Levy-Deinhard e a partir desse curso foi que ela decidiu que ia se tornar artista, o que não era muito fácil naquela época, ainda mais sendo mulher, mas para se sustentar ela começou a dar aulas, primeiro em casa e depois entrou como professora do Museu de Arte Moderna. Ela sempre dizia que nunca tinha se arrependido dessa decisão, que realmente era o que ela queria fazer, ela queria ser artista.

Kristina Michahelles:
Então, Aquila, no pós-guerra houve um florescimento do abstracionismo no mundo inteiro, mas isso também foi motivo de rompimento entre artistas - a gente já está dando um pulo para frente aqui com o desenvolvimento artístico da Fayga - a Anna Bella Geiger, que era aluna da Fayga, presenciou uma cena um tanto constrangedora na primeira individual abstrata da artista, no mezanino do Palácio Capanema, em 1954. Oswaldo Goeldi, também gravurista famoso e amigo da Fayga, partiu para cima dela super incomodado e perguntou: “onde é que você acha que vai parar?” A Anna Bella conta que a reação da Fayga foi de
susto, ela respondeu: também não sei, mas sinto que esse é o caminho que devo seguir. Aí eu te pergunto, Aquila, por que o abstracionismo no Brasil provocou esse tipo de reação ou de polarização para usar um termo da moda?


Luiz Aquila:
A Fayga me contou esse episódio. Nós éramos colegas do júri no Salão de Arte da Funarte e ela contou dizendo que Goeldi tinha dito: isso é um beco sem saída. Então, essa imagem da arte não-representacional como beco sem saída era muito comum, porque a saída era a História, a saída era a narrativa, a coisa anedótica. Então por aí você tinha o personagem andando e elevando o seu quadro. Quando você chegava na arte abstrata, que não tinha mais o personagem porque o personagem era o próprio artista, os figurativos mais conservadores, quer dizer - Goeldi foi um grande artista, eu acho que foi um dos maiores
expressionistas alemães, melhor do que muito expressionista alemão da Alemanha - mas ele era um homem do seu tempo, um homem muito ligado à narrativa e não tinha jogo de cintura. Tinha um trabalho que era muito flexível e muito lírico e muito pessoal, mas como homem não, tinha uma certa rigidez. Então isso deve ter incomodado muito, especialmente sendo a Fayga, que era uma mulher tão inteligente. Ele dizia, por que essa mulher tão inteligente vai encontrar um beco sem saída? Acho que essa indignação se deu pela qualidade da Fayga.

Nesse período, até muito recentemente eu ainda peguei isso, até a década de 60, você tinha os geométricos, as pessoas que vinham voltadas mais para a questão social, como a linha de Portinari, depois os gravadores gaúchos, e no meio disso, você tem os expressionistas. Então Newton Cavalcanti, que era muito mais jovem, Goeldi, o Marcelo Grassmann, pessoas que por trás da figura tinham a história da figura e a narrativa. Então foi um momento muito de divisões, e como o meio de arte era mínimo, essas divisões eram bolhinhas que se chocavam, e quando vem a coisa abstrata, é uma grande puxada de
tapete, tanto para o pessoal mais expressionista quanto para a linha mais de uma interpretação muito brasileira, e muito claro que não tinha nada a ver com o realismo socialista de Stalin, da Rússia, que eles tinham uma versão do realismo brasileiro, que
também era uma puxada de tapete: olha, nós que nos empenhamos tanto, nós que fizemos esse discurso, nós que somos tão bem intencionados, de repente vem essa moça e não tem personagem, o que é isso?


Noni Ostrower:
Eu acho que essa época - a gente consegue ver isso pela coleção de jornais que minha mãe guardou desde 1940 e poucos, ela juntou todos os jornais que saíram sobre a trajetória dela - parece que foi um tsunami contra ela, não só os jornais, mas muitos críticos de arte e colegas artistas, e acho que uma das pessoas que ela mais sentiu de ter cortado relações
com ela foi o Leskoschek.


Luiz Aquila:
Leskoschek?


Noni Ostrower:
Leskoschek que cortou as relações com ela e ela ficou muito triste com isso, Levou anos até que essa relação foi recuperada, eu me lembro que a gente viajou para a Europa, eu, meu irmão e meus pais, e fomos lá e ela foi visitar o Leskoschek, eu não sabia nada dessa história na época, só sei que ela foi visitar um artista amigo dela, mas foi nessa época que eles retomaram o contato. Para ela foi muito duro, porque ela admirava muito o Leskoschek como artista, como gravador, então não deve ter sido nada fácil.

Kristina Michahelles:
Só para lembrar, Axl Leskoschek, um gravurista austríaco também refugiado de guerra, fazia parte da mesma turma da Fundação Getúlio Vargas e é um artista muito, muito expressivo, ilustrou vários livros importantes da época.

Leonardo Dourado:
Então a questão que eu queria levantar é só a seguinte, vocês acham que essa reação exaltada do Goeldi teria alguma coisa a ver também com, digamos, a polarização, a crítica que a esquerda fazia ao stalinismo e o fato dela ser mais identificada com o trotskismo, ou o fato de ela ser, uma questão de gênero, ela ser mulher e ter essa guinada, esse tipo de crítica por uma dessas duas vias não tem nada a ver?

Luiz Aquila:
Em outros casos pode ter. Eu gostaria de estender um pouquinho mais, é uma história que nunca foi contada: o meu pai foi do júri do Salão, muitas vezes júri do Salão Moderno, e uma vez ele deu o prêmio à Fayga e vieram falar para ele: você não devia ter dado o prêmio à Fayga. E perguntaram, por quê? Parece que ela é trotskista. Então as coisas eram limitadas, simplórias, e tinha várias formas de repressão, de vários ventos, ventava de vários lados, a repressão vinha de vários lados. Então você manter essa integridade no seu caminho e saber que Leskoschek resolvia a questão plástica tão bem quanto a Fayga
resolvia como artista abstrata, quer dizer, o assunto da Fayga era outro, o que não deixava de ter assunto, o assunto era a própria gravura. E o Leskoschek, além da própria gravura, tinha personagens, tinha Dostoiévski, que apareciam visitando a obra dele, mas a obra dele tem qualidades plásticas que senão não teria se mantido, arte não é feita de boa intenção.


Leonardo Dourado:
Então agora vamos voltar para a Fayga, temos aqui um outro trecho dela, vamos ver como é que ela se referia ao tema em sua aula, enquanto exibia os slides das suas obras. 

 

Fayga Ostrower:
O que é verdade para a arte figurativa, do mesmo modo é verdade para a arte abstrata. Eu não vou entrar agora em grandes explicações, até porque nem tenho tempo para isso, sobre Mondrian, mas comparem só esta composição de Mondrian, de horizontais e 
verticais, de planos horizontais e verticais, muito calma, muito introspectiva até, com o seguinte, o quadro de Kandinsky, que é cheio de movimentos. Sem entrar no mérito, vocês podem ver que são duas maneiras diferentes de conceber a vida. Uma é realmente muito mais introvertida, a outra é muito mais expansiva, até mesmo dramática, mesmo no sentido
de uma alegria, uma alegria de vida, diferente da que nós encontramos em Mondrian. Todas as indicações visuais que o artista nos dá, imediatamente nos dá uma ideia daquilo que vai ser o conteúdo expressivo desse quadro.


Leonardo Dourado:
Algum dos dois quer fazer algum comentário?

Noni Ostrower:
Eu queria comentar esse lado de educadora da Fayga. Ela sempre dizia que a arte é uma linguagem da humanidade e que qualquer pessoa tinha condição de entender arte e de gostar de arte, contanto que você explicasse as coisas de uma forma que qualquer pessoa pudesse entender. Um operário, um trabalhador, vivendo de salário mínimo, que é uma situação muito complexa, ele sabia o que era a complexidade da vida, então explicando de forma simples, ele poderia entender o que é a complexidade da arte, e por isso ela dava aulas maravilhosas para muitos públicos e para muita gente, quando ela dava qualquer curso, enchia de gente.

Kristina Michahelles:
Esse trechinho que a gente ouviu agora ilustrou isso super bem, porque a Fayga foi uma grande educadora, ela criou sua própria metodologia e começou a dar aulas de teoria da arte no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, mas não só, também como você mencionou agora em fábricas. Queria só mudar de tema aqui, um ano depois daquela polêmica exposição abstracionista que a gente discutiu agora, ela ganhou uma bolsa de aperfeiçoamento da Fundação Fulbright nos Estados Unidos onde passou seis meses, o marido Heinz ficou tomando conta das crianças.

Leonardo Dourado:
Então para falar no marido Heinz, a gente vai aqui rapidamente para uma questão familiar: Noni, seu pai era um militante antifascista, dissidente trotskista do Partido Comunista da Alemanha, onde ingressou ainda jovem. Ele dava curso de formação marxista, se correspondia com Isaac Deutscher, biógrafo de Trotsky e de Stalin, me diz uma coisa, ele dava conta de participar como pai em casa?

Noni Ostrower:
Eu acho que dava conta sim, e tinha que dar, porque minha mãe viajava muitíssimo, nessa época que ela passou seis meses com a bolsa da Fulbright, uma pessoa que ajudou muito foi a Anna Bella [Geiger], de vez em quando a gente ia para a casa da Anna Bella, eu e meu irmão, e ela ficava com a gente, essa coisa da rede, de apoio. Ele era muito presente e uma pessoa mais introvertida do que a minha mãe, mas com uma doçura muito grande, e ele tinha uma escuta muito grande, mais do que a minha mãe. Eu discutia muito com a minha mãe, mas com meu pai a gente conseguia ter um diálogo maior. Eu tenho muitas histórias com meu pai, mas eu queria contar duas histórias bem curtinhas.

 

Em 1971 eu estava na Faculdade de Medicina, era ditadura militar, nesse momento mais duro da ditadura, eu participava do movimento estudantil e fui presa. Fiquei presa na PE da Barão de Mesquita, eu era menor de idade, e aí depois quando meu pai foi me buscar, me levou para casa, falou vai dormir e tal, e no dia seguinte ele me deu um livro de presente sobre política, eu não consigo me lembrar que livro foi aquele, mas eu nunca esqueci a mensagem dele, que foi dizer assim: ó, tá tudo bem. Até porque, lutando contra o fascismo, o nazismo na Alemanha, ele ficou preso durante três anos antes de ser deportado e vir para
o Brasil, porque naquela época os militantes de esquerda, eles tinham que sair do continente europeu para não ir lutar na Espanha contra o Franco. Meu pai já tinha um irmão no Brasil, ele veio para o Brasil, e é assim.

A outra história é que depois eu me formei em Medicina, me formei em Saúde Pública, apesar de que três anos depois de formada eu abandonei a medicina e enveredei por outros caminhos. Mas nessa época eu morava em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, e junto com outros três médicos fundamos um ambulatório popular num bairro da periferia de Nova Iguaçu. Você imagina, Nova Iguaçu já era periferia do Rio e esse bairro era periferia da periferia, chamava-se Cabuçu, e lá nós, além do trabalho como médicos, ajudamos a fundar muitas associações de moradores, porque era uma época de ascensão do
movimento popular no Brasil inteiro, e em Nova Iguaçu se criaram 300 associações de bairro. Foi a época inclusive que o Lula apareceu com as greves em São Bernardo e tudo e meu pai participou da fundação de uma ONG que nós criamos que se chamava CEAC, Centro de Estudos e Ação Comunitária, que tinha como objetivo dar apoio ao movimento popular. A gente fazia cursos para professores de creches comunitárias, em 88 que teve a Constituinte o CEAC ajudou a montar cursos dois anos antes da Constituinte, para ir em todas essas associações, explicar o que era Constituinte, para as pessoas poderem entender
o que estava acontecendo naquele momento, e meu pai acompanhou isso muito.

Ele saía do Rio, ia para Nova Iguaçu para participar desses cursos também e sempre foi muito presente.
Toda vez que viajava para Europa com a minha mãe, buscava recursos em instituições do exterior para ajudar nesse trabalho,
e finalmente, quando se aposentou, durante dois anos, não me lembro quantos anos foram, mas ele ficou como presidente do CEAC. Na minha trajetória de vida, ele foi uma pessoa muito presente, não só como pai, mas como amigo, esse companheiro daquelas lutas todas.


Kristina Michahelles:
Um grande casal e atrás de cada grande mulher tem um grande homem, porque Heinz Ostrower foi uma pessoa realmente bastante considerável.

Noni Ostrower:
E os dois eram de esquerda, sempre foram de esquerda, pela sua própria história de fugir do nazismo, então eu fico pensando hoje em dia: com essa onda de fascismo no mundo inteiro, o que meu pai e minha mãe teriam pensado, acho que eles teriam ficado muito tristes com a volta dessa barbárie.

Kristina Michahelles:
E teriam escrito inúmeras cartas, porque nas cartas que os dois escreviam que eu tive oprivilégio de ler em detalhe isso está muito claro nessas posições e esse envolvimento com o texto da época. Mas vamos voltar para a Fayga, porque é uma mulher premiadíssima. Em 1957, Fayga recebeu o Prêmio Nacional da Gravura na Quarta Bienal de São Paulo e no 
ano seguinte já veio o reconhecimento internacional: ela foi premiada na 29a Bienal de Veneza. E a partir daí veio um prêmio atrás do outro, e muitos, muitos convites para expor mundo afora: Galeria Bonino em Buenos Aires, uma individual no Museu de Arte Moderna
de Amsterdã, título de cidadã carioca honorária, Ordem do Rio Branco, membro honorária da Accademia Fiorentina delle Arti del Disegno.


Leonardo Dourado:
Até que em 1964, ela foi convidada pelo governo americano para lecionar na Spelman College de Atlanta, onde passou sete meses como professora residente e professora visitante. As cartas para a família daquela época testemunham os fatos que marcaram a história, como a gente estava falando aqui, no mundo daquele ano, e foram reunidas em um livro.

Kristina Michahelles:
E essa temporada nos Estados Unidos, esses sete meses, também entrou na troca de correspondência entre Fayga e a historiadora da arte, Hanna Levy Deinhardt. As duas eram amigas próximas desde as aulas na Fundação Getúlio Vargas, como a Noni mencionou.

Elas escreviam as cartas sobre a teoria da arte, mas também analisavam a conjuntura social e política no Brasil e no resto do mundo ao longo de mais de 30 anos, três décadas, de 1948 a 1979. Eu fiquei muito impressionada com a clarividência dessas duas mulheres combativas e muito à frente do seu tempo, quando tive o privilégio de revisar as cartas para um livro editado pelo Instituto Fayga Ostrower em 2024.


Leonardo Dourado:
Bom, e para quem gosta de arte, eu posso lembrar também que o nosso podcast tem um programa inteiro sobre Hanna Levy-Deinhard, que foi muito amiga da Fayga como você acabou de sublinhar agora há pouco. Vocês querem fazer mais algum comentário?


Luiz Aquila:
É o seguinte, porque falou-se de Isaac Deutscher e Fayga fala sobre a inteireza. E tem um livro de Isaac Deutscher, eu não me lembro o título, que é sobre exílio, quando ele sai da Alemanha e vai para os Estados Unidos. Ele chega nos Estados Unidos, já um intelectual muito conhecido, prestigiado, é recebido por pessoas importantes. Aí vai a um coquetel na casa de uma senhora onde tinha uma imensa reprodução de Guernica. E ele fica muito chocado, porque disse que tem aquela tragédia e as pessoas bebericando Martini ali. Ele disse: será que as pessoas não percebem que isso é uma tragédia? Aí ele diz que depois disso foi ao Texas visitar um casal de novos ricos. E a senhora estava muito orgulhosa de um Chaïm Soutine que ela tinha na sala de jantar. E tinha um marido que era um sujeito pouco culto e tal, um rico inculto. E ela falou, imagine, meu marido quer que eu tire esse
quadro daqui? Ele disse que esse quadro é impossível ficar aí e jantar com esse quadro aqui. Aí o Deutscher disse: esse senhor tinha razão. (risos) Era o contrário da outra. Esse marido sabia que não era para se comer na frente da tragédia do Chaïm Soutine.


Kristina Michahelles:
Mas o interessante nisso tudo é como esses intelectuais, essas pessoas que vieram refugiadas de guerra eram conectadas com intelectuais de grande expressão internacional como Isaac Deutscher. Tanto que o teu pai se correspondia, os casais se correspondiam, como é que é essa história?

 

Noni Ostrower:
Meu pai se correspondia com Isaac Deutscher, mas os dois casais eram amigos. Tanto que depois que ele morreu, a minha mãe continuou se correspondendo com a Tamara Deutscher, a mulher dele. E era uma grande amizade.


Kristina Michahelles:
Olha, os arquivos de Noni Ostrower são uma mina a ser explorada pelos pesquisadores.


Leonardo Dourado:
Quem sabe temos alguma joia aí, né? E assim vamos chegando então ao final do nosso episódio sobre a artista polonesa Fayga
Ostrower, no podcast Canto dos Exilados em sua segunda temporada.


Kristina Michahelles:
O programa de hoje teve pesquisa e apuração de nossa equipe, suporte do Dicionário dos Refugiados do Nazifascismo no Brasil e do Instituto Fayga Ostrower. Contou com as participações de Noni Ostrower e do artista Luiz Aquila, a quem agradecemos. A íntegra da aula de Fayga Ostrower com trechos em destaque aqui no episódio está disponível no site do Instituto em www.faygaostrower.org.br, Fayga com ípsilon, Ostrower com dabliu.

Leonardo Dourado:
E no apoio à produção nós tivemos João Maurício. As gravações e a parte técnica ficaram a cargo do Estúdio Ipiranga no Rio de Janeiro. A montagem é do Fabiano Araruna e é dele também a trilha sonora. O roteiro a quatro irmãos é meu, Leonardo Dourado, e da Kristina Michahelles, ambos fizemos também a apresentação.

Kristina Michahelles:
E no site www.podcastcantodosexilados.com.br é possível ler a transcrição completa de todos os episódios das duas temporadas para portadores de deficiência auditiva. O design do site é da Luana Aguiar. Até a próxima!

Fim do episódio 4 - Fayga Ostrower

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