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Giorgio Mortara
Episódio 5: 34’43’’

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Vinheta de abertura


Leonardo Dourado:
Olá, está no ar mais um episódio da série de podcast Canto dos Exilados, agora em sua segunda temporada. Eu sou o jornalista Leonardo Dourado.


Kristina Michahelles:
Este podcast apresenta as histórias dos que fugiram da Segunda Guerra Mundial e encontraram abrigo no Brasil, deixando um vasto legado à nossa cultura, às artes e às ciências. Eu sou Kristina Michahelles.


Leonardo Dourado:
Kristina também é jornalista, tradutora, roteirista e diretora do Museu Casa Stefan Zweig de Petrópolis, instituição cultural que apoia esta iniciativa.


Kristina Michahelles:
Sob a inspiração de Alberto Dines, biógrafo do escritor austríaco Stefan Zweig, que viveu os seus últimos meses no Brasil, o Canto dos Exilados pesquisa e preserva a memória daqueles refugiados.


Leonardo Dourado:
Esta segunda temporada do podcast Canto dos Exilados tem o patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS.


Passagem


Kristina Michahelles:
E allora, andiamo via”! “Então, vamos", decidiu com voz firme Laura Ottolenghi, casada com o demógrafo italiano Giorgio Mortara. O registro consta das memórias do economista, que também era estatístico. O texto se chama Ricordi della mia vita (Recordações da minha vida) e se refere à penosa, porém acertada, decisão de deixar a Itália em 1939 depois que ele foi proibido de trabalhar em seu país por ser judeu.


Leonardo Dourado:
Naquela época, ele já era considerado um dos mais brilhantes pesquisadores estatísticos da Itália, além de ser livre-docente em Estatística na Universidade de Roma. Em 1938, ele também dava aulas na Universidade de Milão e dirigia o Giornale degli Economisti. Você já vai entender a enorme contribuição que esse italiano deixou aqui em nosso país, especialmente para o Censo de 1940.


Kristina Michahelles:
A determinação de Laura foi o gatilho que fez com que Mortara iniciasse a busca ativa por uma posição no exterior. Ele conhecia seu prestígio e apostava várias fichas na Inglaterra e nos Estados Unidos. Disparou currículos especialmente para os sócios do Instituto Internacional de Estatística e da Sociedade Econométrica, da qual fazia parte.


Leonardo Dourado:
Mas eis que foi surpreendido por um convite do Brasil. Foi chamado para ser consultor técnico da Comissão Censitária Nacional que preparava o censo de 1940. O chamamento veio do antigo Instituto Nacional de Estatística, fundado por Teixeira de Freitas, e que foi o embrião do atual IBGE, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.


Kristina Michahelles:
Entenda por que Mortara foi tão importante para o recenseamento do ano de 1940. Até ali, o país havia realizado quatro censos para contar nossa população e entender seu crescimento: em 1872 - ainda no Império - depois em 1890, em 1900 e em 1920. Havia uma defasagem de 20 anos a ser superada.


Leonardo Dourado:
Até mesmo os registros de óbitos eram precários. Mortara fez um exaustivo levantamento do que havia sido apurado nos censos anteriores e se debruçou especialmente sobre a análise interpretativa feita pelo diretor do censo de 1920, José Sayão Bulhões de Carvalho. Graças à experiência prévia do italiano, foi possível estimar com muito mais precisão o número e a frequência de nascimentos e mortes, montando tábuas de mortalidade, sobrevivência e fecundidade.


Kristina Michahelles:
O episódio de hoje tem dois convidados. Fábio Mortara, neto do cientista e pessoa da família que tem se ocupado da preservação do acervo familiar, e José Eustáquio Diniz Alves. José Eustáquio é cientista social e também demógrafo. Eu começo pedindo a ele que contextualize para nós o papel de Mortara naquela época, explicando o que é a tal análise interpretativa feita no censo anterior em 1920, e por que ela é tão importante.


José Eustáquio Diniz Alves:
A primeira coisa é entender a importância de um censo demográfico. Por exemplo, nos Estados Unidos, quando foi feita a independência, depois a Constituição, logo em seguida foi feito o primeiro censo em 1790. E de lá para cá, a cada 10 anos, os Estados Unidos fazem um censo. Por quê? Porque o censo é importante, porque você precisa saber o tamanho da população, a composição da população, quantos são mulheres, homens, a idade e as características dessa população, educação, saúde, mercado de trabalho e vários outros indicadores sociodemográficos.


No Brasil, o primeiro censo foi feito em 1872, cinquenta anos depois da Independência. Não foi porque não queriam. O imperador tentou fazer um censo em 1752, nos 30 anos da independência e não conseguiu. Houve uma revolta popular porque o pessoal entendeu mal qual era o objetivo do censo. Então o primeiro censo aconteceu em 1872, cinquenta anos
depois da Independência. O segundo já foi em 1890, no primeiro ano da República. O terceiro em 1900, pulou 1910 e foi em 1920 o quarto. E em 1930 pulou também por causa da revolução. O Getúlio Vargas veio com os cavalos dele - nós estamos aqui no Rio de Janeiro - e amarrou os cavalos na Cinelândia, e num quadro desses era impossível fazer o censo. Então o quinto censo foi realizado em 1940.

O censo é muito importante, por exemplo nessa variável demográfica, porque o ideal seria a gente ter registros administrativos. Se a gente sabe todo o nascimento, como é que ele acontece, toda a morte, como é que ela acontece, o momento certinho, esses dados certinhos, você calcula o crescimento populacional, a taxa de fecundidade, a expectativa de vida. Só que os registros civis, até hoje no Brasil, são deficientes - já melhoraram muito, obviamente, mas são deficientes. Pensa naquela época, os registros civis eram muito piores. A solução para saber o crescimento populacional, a taxa de fecundidade, a taxa de mortalidade, a expectativa de vida, são técnicas indiretas, que são feitas por pesquisas igual ao censo. Para o Brasil todo a única pesquisa é o censo demográfico. 

Então, para que o censo faça isso, ele precisa ter as perguntas adequadas, tem que ser planejado antes, não é chegar e sair perguntando para as pessoas o que quiser. Você tem que ter técnicas, as perguntas para responder determinadas questões, depois você tem técnicas estatísticas para calcular esses indicadores. Nos censos anteriores não tinha essas perguntas, a maioria delas e as mais importantes para esse cálculo. O Brasil não tinha escola de estatística, não tinha demógrafo, até agora - a gente está falando aqui no início - quando eu falo que sou demógrafo, as pessoas se assustam, o que é isso, o que é demografia? Pensa naquela época. E o Mortara era um grande demógrafo, ele inclusive pertencia à Associação Internacional de Demografia, criada em 1929. Depois, chegou a ser presidente da Associação Internacional, então foi muito importante.
 

E aí quando o Mortara chegou - é uma coisa incrível porque o censo tem que ser preparado com muita antecedência. Ele chegou em 1939, o censo foi feito em 1940- então ele teve muito pouco tempo para se inteirar do censo e conseguir influir, colocar as perguntas corretas, foi um trabalho incrível e ele teve um papel muito importante na elaboração do censo de 1940 e depois na comparação com os censos anteriores. Então toda essa análise que ele fez foi para a gente ver porque o censo também tem erro, apesar de estar contando toda a população, ele tem os erros naturais das pesquisas. Ele [Mortara] foi fundamental para a realização do censo e depois para a análise do censo de 1940 e também da comparação com os censos anteriores. Para você saber a taxa de crescimento da população, a estrutura etária e tudo o que é fundamental para o planejamento econômico do país. Os Estados Unidos faziam isso desde 1790.


Leonardo Dourado:
Mesmo vivendo em uma realidade como a europeia, da Itália, ele chegou aqui e com pouco tempo, aplicou perguntas de lá, mas, enfim, funcionou. 


José Eustáquio Diniz Alves:
Ele tinha técnicas de pergunta para construir esses indicadores demográficos e ele adaptou essas técnicas para para a realidade brasileira de uma maneira muito criativa. 


Kristina Michahelles:
As tábuas de mortalidade, sobrevivência e fecundidade…


José Eustáquio Diniz Alves:
Você precisa fazer as perguntas corretas no censo para depois você calcular todos esses indicadores, você precisa ter determinadas perguntas, se você não tiver as perguntas no censo você não consegue calcular. O que ele fez foram as duas coisas, ele colocou as perguntas corretas e depois fez uma análise muito criativa.


Leonardo Dourado:
Vamos passar agora um pouquinho para o lado da família. Fábio, você conviveu com o Mortara até os 13 anos, com seu avô até os 13 anos, ele nos deixou em 1967. Você traça um perfil da família como sendo a típica família italiana, que se reunia de tempos em tempos, mesmo como a parte dela vivia em São Paulo e o nonno Giorgio aqui no Rio de Janeiro. Ao detalhar as características do seu avô, você sempre destaca o bom humor, o gosto pelo desenho e você cita um prosaico detalhe que ele tinha lá uma potente máquina alemã de calcular que ele carregava para todo lado, a máquina virou uma coisa especial.
Como é que você descreveria aquele ambiente familiar com base nas memórias que você guarda do convívio do seu avô?


Fábio Mortara:
O nonno Giorgio era surdo. Quando eu fui crescendo em idade e convivendo mais, vendo que a comunicação era toda por gestos, gestual e tudo mais, a surdez já vinha de longa data, os aparelhos auditivos ainda eram precários, isso já restringia, e aí a forma gostosa de ele se comunicar com a gente era por desenhos, por textos, por imagens, por caricaturas, isso eu fiz uma coleta com os outros doze primos, são treze os netos de Giorgio e Laura.
Laura era economista também, o que é uma coisa muito rara, a Laura Ottolenghi, aquela que disse “e allora andiamo”. Então era uma coisa muito, muito inusitada, um casal intelectualizado. E a gente, então, saía aqui de São Paulo, papai colocava todo mundo na Vemaguete, um carro muito típico, era uma peruinha de um motor de mil cilindradas que levava nós seis, papai e mamãe, mais uma pessoa que ajudava, éramos nove, mais as malas que iam no teto. Íamos para Teresópolis. Se fosse encontrar o nonno e a nonna na casa deles, chamava Cadori, Casa dolce riposo. Eles gostavam de ter nome nas casas e
mesmo nos automóveis, tinham uma forma afetiva e tinha a lembrança do Rio de Janeiro, da Conselheiro Lafayette, em Copacabana, um apartamento confortável que eles compraram depois que saíram da casa da Rua Pompeia, foi acho que a primeira casa que eles tiveram e todo o acolhimento que teve pelo Brasil, desde o embaixador Barbosa Carneiro que cuidou, depois o presidente Macedo Soares, que era presidente do IBGE, que cuidou de tudo, quer dizer, o Brasil sabia a importância do Giorgio e para o Giorgio esse emprego no IBGE era muito importante.


E aí voltando à memória familiar, essa coisa de irmos em massa para visitar o nonno e a nonna, só completando com a memória da maquininha de calcular que eu acho que era alemã, era das infindáveis horas que o nonno passava trabalhando. Minha memória de infância é muito do nonno trabalhando.


Leonardo Dourado:
Muito bem, muito bom.


Kristina Michahelles:
Entre 40 e 42 seu avô já estava publicando trabalhos em português.


Fabio Mortara:
Já.

Kristina Michahelles:
Nós vimos que ele escreveu os Estudos sobre a utilização do censo demográfico para a reconstrução das estatísticas do movimento da população do Brasil, um título enorme. E a pesquisadora Elza Berquó, outro ícone pioneiro da demografia em nosso país, lembrou em uma das várias homenagens a Mortara que a partir daí seu trabalho criativo e competente
marcou as décadas seguintes com ricas informações e interpretações sobre a dinâmica da população brasileira, não é professor?


José Eustáquio Diniz Alves:
Exato, ele se adaptou muito rápido no Brasil. E foi muito prolífico. Ele fez análises fundamentais porque o planejamento econômico, por exemplo, você está lá na década de 40, você tem de saber como vai ser o crescimento da população - só uma curiosidade: a Itália era maior do que o Brasil até a década de 30 e a Itália era o país mais católico do mundo, foi na década de 40 que o Brasil passou a Itália e se transformou no país com a maior quantidade de católicos do mundo e o Brasil crescendo rapidamente - então para você planejar a economia, quanto você vai precisar de energia, quanto você vai precisar de escolas, de hospitais, você tem de saber essa dinâmica demográfica como é que ela acontece, principalmente numa época que estava crescendo muito rápido, então os trabalhos do Mortara foram fundamentais não simplesmente para a estatística, para o IBGE, para a demografia porque têm efeito prático para as políticas públicas, para o planejamento da iniciativa privada, para você saber como vai se comportar a população nos anos seguintes. E hoje que a gente já tem um distanciamento histórico, os trabalhos são importantes ter um quadro histórico, você voltar lá em 1872, que é o primeiro censo, reconstituir toda essa trajetória demográfica, social e econômica do Brasil: a gente tem que conhecer o passado para entender esse presente e para projetar o futuro. Esses trabalhos do Mortara na época foram importantes para a política pública naquele momento, para a
iniciativa privada, para a economia do Brasil e hoje é muito importante para reconstituir toda essa história.


Leonardo Dourado:
E ainda por cima temos os percalços do meio do caminho, porque em 1942 o Brasil entrou na guerra ao lado dos aliados americanos. Aí Giorgio, Laura e os quatro filhos do casal passaram a ser cidadãos de um país inimigo.

Kristina Michahelles:
Pois é, isso poderia ter sido um empecilho à cooperação do italiano, mas em suas memórias ele relata que nada mudou, graças à “generosa hospitalidade dos brasileiros”, seu trabalho continuou e as crianças seguiram na escola.

Leonardo Dourado:
Então Fábio, voltando com você, também tem uma outra frase na autobiografia do Mortara, se refere à chegada no Brasil e que reforça essa citação anterior, você passou rapidamente por isso. Ele escreve: “a acolhida que tivemos ao desembarcar no Rio de Janeiro em 1939 fez renascer em nossos corações a fé na fraternidade humana”. Para quem vinha da Europa em chamas é totalmente compreensível, e isso parece ter sido uma tônica da passagem da família Mortara no Brasil. Que outras lembranças o seu pai Alberto, filho do Giorgio, teria eventualmente compartilhado com você sobre essa questão da acolhida, e sobretudo nesse período um pouco complicado que era o período deles aqui, como cidadãos de um país supostamente inimigo, tecnicamente inimigo, como é que isso bateu na família naquela época?

Fabio Mortara:
As lembranças são, primeiro, de que em momento algum ninguém dentro do IBGE, e acho que até do governo brasileiro, sequer pensou em abrir mão do trabalho de Giorgio Mortara naquele momento. Segundo, da naturalização. Papai junto com o nonno Giorgio, meu pai Alberto mais velho, se naturalizou e acho que os outros irmãos também, quer dizer, os quatro filhos se naturalizaram, Marcela, Guido e Valério e essa foi uma atitude que eu acho que não foi por pressão, mas foi uma questão de opção realmente. Eles tinham tido um pouquinho de aula de português, essa coisa do Giorgio em poucos anos depois de chegar já publicar, fazer publicações grandes e extensas em português é muito de uma inteligência diferenciada que eles tinham e de um preparo, de uma metodologia, quer dizer, os quatro filhos também eram super bons alunos, essa coisa da disciplina, da obsessão com a perfeição, da seriedade intelectual se transferiu muito para os quatro filhos, Alberto economista, Marcela catedrática na UERJ e livre docente na Federal, e Valério, primeiro colocado no curso de Engenharia da Universidade do Brasil, que depois virou Federal do Rio de Janeiro. Quer dizer, todos super bons alunos, e essa coisa da incorporação do
Brasil. Guido e Alberto se casaram com duas pernambucanas, originalíssimas, a terra tem o nosso sangue, Arruda Mortara, então essa mistura que fez a família se incorporar mais ainda a um país que os acolheu e que de fato criou espaço para esse trabalho maravilhoso que ele desenvolveu ao longo da carreira.


Kristina Michahelles:
O legado dele, vamos voltar a ele um pouquinho, porque no final de 1949 o gabinete técnico do Serviço Nacional de Recenseamento tornou-se o laboratório de estatística do atual IBGE, Giorgio Mortara é considerado o formador da primeira turma de demógrafos da instituição. Então professor José Eustáquio, nós chegamos ao século 21, dentro daquela filosofia: tem que entender o passado, o presente baseado no passado para projetar o futuro. Você vem fazendo conferências, tem escrito textos e dado entrevistas, alertando que nosso país precisa se preparar para a nova realidade populacional que vem pela frente. Então, sobre a inspiração desse nosso pioneiro, Giorgio Mortara, qual é o cenário que a pesquisa e a interpretação dos dados nos apontam pela ciência demográfica? 


José Eustáquio Diniz Alves:
Só completando: a ENCE (Escola Nacional de Ciências e Estatísticas) é a primeira escola de estatística do Brasil, foi a partir das pessoas formadas na ENCE, que surgiram outras escolas e depois incorporou explicitamente a parte demográfica também. Hoje tem mestrado, doutorado sobre estudos populacionais, então é estatística, mais ou menos eu junto as três coisas, estatística, geografia e demografia. E o Mortara foi fundamental para criar essa primeira escola do Brasil que gerou vários frutos.

 

A dinâmica demográfica na época do Mortara é completamente diferente de hoje. O Brasil e o mundo passaram pela transição demográfica. Eu costumo falar que a transição demográfica é o evento de mudança de comportamento de massa mais importante da história da humanidade porque desde o surgimento do Homo sapiens, há mais de 200 mil anos, as taxas de mortalidade sempre foram muito altas. E como a humanidade não conseguia reduzir essas taxas você tinha que ter uma fecundidade muito alta para contrabalançar essa alta mortalidade.


A Igreja, as instituições incentivavam as pessoas a casarem cedo, ter muitos filhos, mas depois da Revolução Industrial, do avanço da medicina, do avanço do transporte, da comunicação etc, essas taxas de mortalidade começaram a cair. E depois de um tempo - isso é muito interessante porque não está escrito em nenhuma Constituição, nenhuma lei, mas acontece em todos os países do mundo - primeiro cai a mortalidade e, passa um tempo, começa a cair a natalidade ou a fecundidade. O que varia nos países é o nível da mortalidade. Alguns países tinham a mortalidade mais alta, outros um pouquinho mais baixa, alguns tinham fecundidade mais alta, outros um pouquinho mais baixa, e o tempo entre a queda da mortalidade e a queda da natalidade varia entre os países. Mas esse padrão da transição demográfica é universal. É incrível porque não está escrito em lugar nenhum e todos os países se comportam desse jeito. Então, na época do Mortara a mortalidade já estava caindo, ela começou a cair já no final do século 19. Depois da Primeira Guerra caiu, na década de 30, depois da penicilina, por exemplo, foi fundamental para a queda da mortalidade. Então, o trabalho do Mortara foi mostrar o nível dessa mortalidade e como ela estava caindo. Isso tem implicações na sobrevivência das pessoas, na maior disponibilidade de ofertas de trabalho para a economia, etc.


A fecundidade continuou alta até depois que ele morreu, porque a fecundidade começou a cair exatamente no final da década de 60, início da década de 70, então o Giorgio Mortara não viu esse processo de transição da fecundidade no Brasil. Mas os trabalhos dele foram fundamentais para você saber o nível dessa fecundidade, como é que ela está.


Kristina Michahelles:
E hoje, como é que ela está? 


José Eustáquio Diniz Alves:
E hoje nós estamos numa fase da transição demográfica que é o contrário do que era na época do Giorgio. Naquela época, o debate que existia era sobre a explosão demográfica, o crescimento muito grande da população e o grande número de filhos. E hoje no mundo inteiro, com exceção da África, esta taxa está caindo. Está caindo mais do que se esperava.


Eu acho que se o Mortara estivesse vivo, ficaria assustado com a realidade de hoje. Eu mesmo comecei a estudar na década de 80, fiquei assustado porque a ideia que se tinha é que a taxa de fecundidade ia cair até algo parecido com o nível de reposição que é 2,1 filhos por mulher porque a gente mede a fecundidade pelas mulheres, precisa ter um filho para repor a mulher, um filho para repor o homem e o 0,1 (nova queda de internet ver a montagem) é para repor a mortalidade, porque nem toda criança chega na idade adulta. Então se a taxa ficar em torno de 2,1 no longo prazo, a população nem cresce, nem diminui. Então a ideia que se tinha é que a população crescia muito, mas depois ela iria parar de crescer e ia estabilizar a população.


Você tem toda uma técnica estatística para falar de populações estáveis e isso foi desenvolvido durante muito tempo. Mas o que tem acontecido no mundo é que essa taxa de fecundidade continuou caindo. Por exemplo, o Brasil hoje está em 1,5, essa taxa de fecundidade ninguém esperava que ficasse tão baixa. Está abaixo do nível de reposição. Isso significa que a população brasileira vai começar a decrescer a partir da década de 2040.


E já tem vários países do mundo que a população está decrescendo. O Japão tinha muito filho na época da guerra. Os militares japoneses, os shoguns, os exércitos incentivavam a ter muito filho. Depois da guerra que o Japão saiu destruído, a fecundidade começou a cair e caiu, foi lá para baixo. Então a população do Japão já está diminuindo há muito tempo. A China, que é o maior país do mundo - era o maior país do mundo em termos de população - perdeu o lugar de primeiro do mundo, a Índia passou a China. E a China, pelas projeções da ONU, vai perder cerca de 800 milhões de habitantes. Vai passar de um bilhão e quatrocentos para seiscentos e poucos milhões de habitantes. Por quê? Porque a taxa de fecundidade está muito baixa. A expectativa de vida está aumentando. As pessoas estão vivendo cada vez mais na China. Mas a taxa de fecundidade é muito baixa.

Leonardo Dourado:
Mas você costuma dizer que isso também tem umas janelas de oportunidade? 


José Eustáquio Diniz Alves:
Isso gera desafios e gera uma série de oportunidades também. A questão do meio ambiente eu acho que é a principal, porque o planeta não aguenta uma exploração tão grande. Nós estamos no meio de uma guerra. E o petróleo está no meio dessa guerra. E o petróleo é muito poluidor, provoca aquecimento global. Então, essa transição demográfica gera oportunidades para a gente talvez resolver melhor ou administrar melhor esse impacto ambiental e várias outras coisas sociais também. Eu queria chamar atenção que a realidade demográfica hoje é completamente diferente da realidade demográfica do Giorgio Mortara.
Agora, ela tem uma continuidade. Se você não entender o que estava acontecendo naquele momento, você não vai entender o que está acontecendo hoje. E muito menos vai entender o que vai acontecer no futuro. Essa linha do tempo dos demográficos é superimportante. A realidade muda, mas você conhecer essa dinâmica demográfica é essencial.


Leonardo Dourado:
Eu queria fazer uma última pergunta para o Fabio no final do nosso bate-papo aqui, que é a questão do famoso prêmio que o Mortara também virou. Eu queria que você falasse, explicasse o que é isso, onde está acontecendo, que prêmio é esse?
 

Fabio Mortara:
É um orgulho muito grande, além de ter também no NEPO [Núcleo de Estudos de População], na Unicamp, o material estava aqui comigo, muitos trabalhos do nonno, medalhas condecorações, outras coisas do Giorgio, estão lá no NEPO também, na
Unicamp. Então, tem muita coisa no IBGE, não é professor José Eustáquio\ Ee tem muita coisa também aqui no NEPO por conta da professora Elza Berquó, que era uma fã incondicional de Giorgio Mortara. E nesse contexto surgiu ano passado, a partir de uma iniciativa da Universidade Degli Studi di Milano Bicocca, é uma universidade em Milão, de um professor da universidade que resolveu montar, em conjunto com a Fundação Getúlio Vargas, o CEMIF (Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira) que é um órgão dentro da Fundação Getúlio Vargas e a EAESP, um primeiro prêmio para estudantes de economia, que como é um prêmio conjunto brasileiro e italiano, o nome escolhido foi o de Giorgio Mortara pela união e pela dedicação, pela paixão, por todo o legado que ele tem.

Então, o ano passado foi feito o lançamento do prêmio, esse ano vão ser escolhidos os trabalhos finalistas e depois vai ter um trabalho finalista que vai ganhar uma bolsa de estudos nesse primeiro ano de mil euros, com o financiamento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo). Então é muito bacana saber que tem esse prêmio. Giorgio Mortara vive agora como nome de um prêmio também.


Leonardo Dourado:
Muito obrigado, maravilhoso. Então, assim, com as contribuições para o Brasil do século 21 do demógrafo José Eustáquio Diniz Alves e com as preciosas informações biográficas do exilado Giorgio Mortara, feitas aqui pelo seu neto Fábio, chegamos ao final de mais um episódio da segunda temporada do podcast Canto dos Exilados.

Kristina Michahelles:
Que hoje foi sobre o legado justamente do demógrafo italiano Giorgio Mortara, um refugiado que veio para cá em 1939 e estabeleceu um padrão estatístico científico para nossos censos.

Leonardo Dourado:
O programa de hoje teve pesquisa em apuração nossa e suporte do Dicionário dos refugiados do nazifascismo no Brasil. No apoio à produção tivemos João Maurício e Marcos Vita, gravações e partes técnicas aqui do estúdio IPiranga, no Rio de Janeiro.


Kristina Michahelles:
A montagem é do Fabiano Araruna e é dele também a trilha sonora. O roteiro a quatro mãos é meu, Kristina Michahelles, e do Leonardo Dourado. Ambos fizemos a apresentação.


Leonardo Dourado:
E no site www.podcastcantodosexilados.com.br é possível ver a transcrição completa de todos os episódios das duas temporadas do podcast para portadores de deficiência auditiva. O design do site é da Luana Aguiar. Até a próxima!


Fim do episódio 5 - Giorgio Mortara

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