Otto Gottlieb
Episódio 3: 36’53’’
Vinheta de abertura
Leonardo Dourado:
Olá! A partir de agora, você está com a série de podcast Canto dos Exilados em sua segunda temporada. Eu sou o jornalista Leonardo Dourado.
Kristina Michahelles:
Aqui narramos as histórias dos que fugiram dos horrores da Segunda Guerra Mundial e encontraram abrigo no Brasil. Foram pessoas que deixaram um vasto legado à nossa cultura, às artes e às ciências. Eu sou Kristina Michahelles.
Leonardo Dourado:
Kristina também é jornalista, tradutora, roteirista e diretora do museu Casa Stefan Zweig de Petrópolis, uma instituição cultural que apoia esta iniciativa.
Kristina Michahelles:
Sob a inspiração de Alberto Dines, biógrafo do escritor austríaco Stefan Zweig, que viveu seus últimos meses no Brasil, o Canto dos Exilados pesquisa e preserva a memória daqueles refugiados.
Leonardo Dourado:
Esta segunda temporada do podcast Canto dos Exilados tem o patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS.
Passagem
Otto Gottlieb:
O interesse do homem é arruinar a floresta.
O Homem tem sempre medo da escuridão, de plantas que escondem animais, e ele sempre se locomoveu com facilidade muito mais em terreno aberto, no cerrado digamos, do que na floresta. Então, o Homem desde sempre - não só a partir de 1500 ou coisa que valha - já muito antes, começou a se liberar das plantas, uma boa parte da Amazônia foi inabitada, parcialmente arruinada, replantada, reaproveitada pelos indígenas que ali vivem.
Kristina Michahelles:
A voz que ouvimos é do químico tcheco nascido no então Império austro-húngaro, Otto Richard Gottlieb. Ele foi uma das tantas sumidades que aportaram no Rio de Janeiro fugindo do nazismo. Naturalizado brasileiro, foi o cientista que nos deixou mais perto de ganhar um prêmio Nobel. Este trecho e outros que vamos rodar aqui são de uma entrevista dada ao jornalista Francisco Pinheiro na Globo News em 1999.
Leonardo Dourado:
Otto nasceu e vivia em Brno, na antiga Tchecoslováquia. Quando chegou, em 1939, tinha 19 anos. O pai e o avô também eram químicos. O avô materno Hugo Ornstein intermediava a venda de café do Brasil para a Europa, passava seis meses em Viena e outros seis no Rio de Janeiro. A mãe de Otto, Dora, nasceu em Petrópolis. A fuga da família Gottlieb para o Brasil foi uma aventura.
Kristina Michahelles:
Em 1941, ele entrou na Escola Nacional de Química da Universidade do Brasil, nome inicial da atual UFRJ. Logo identificou seu interesse pelas propriedades químicas das espécies nativas da rica Mata Atlântica do Brasil. Mais tarde, já um profissional reconhecido, manifestaria seu espanto diante do desconhecimento geral de tanta riqueza.
Otto Gottlieb:
A flora brasileira é muito pouco conhecida, o que é incrível, incompreensível, porque hoje em dia, numa época de frenesi por novas drogas, por antibióticos, em que todas as firmas estrangeiras e nacionais, talvez também estão interessadas em descobrir novos remédios porque as velhas doenças que pareciam extintas, cólera, leishmaniose, Chagas, tudo está renascendo porque a destruição da natureza faz com que os inimigos naturais dos parasitas que transmitem essas doenças sejam eliminados.
Leonardo Dourado:
Para conhecer a importância e o legado desse cientista que optou pela cidadania brasileira logo aos 21 anos, ou seja, dois anos após chegar ao Brasil, o podcast Canto dos Exilados convidou duas pessoas: a bióloga Marise Maleck, sua orientanda no doutorado, e Raul Gottlieb, filho de Otto. Eu agradeço a presença dos dois aqui conosco. O Raul participa da gravação do programa lá de Israel, onde ele está neste momento. Raul, por gentileza, conte como foi a dificuldade de adaptação do jovem Otto, sobretudo a dificuldade na adaptação dos estudos que ele trazia da Europa para seguir a carreira de químico.
Raul Gottlieb:
O meu pai veio de uma família que, como você falou, é a terceira geração de químicos da família, a família que três gerações atrás, duas gerações antes dele, era uma família de camponeses. Quando os judeus foram emancipados no Império Austro-húngaro, meu bisavô entrou na universidade, depois o meu avô, e depois o meu pai estava se preparando para isso. E aí, antes de 1939, em 1937, quando a Alemanha ia anexar a Tchecoslováquia - aquela região dos Sudetos ainda não era Tchecoslováquia - a família resolveu - porque era muito perigoso ficar lá, era uma família que tinha uma indústria grande, uma metalúrgica, uma indústria química grande - sair de lá, foram para a Inglaterra. Meu pai passou dois anos na Inglaterra com a família e estudando porque a família sabia que o estudo era o que tirava a pessoa da situação precária que os judeus tinham antes, enquanto eles não podiam entrar na universidade, era a situação de emancipação.
Então, ele passou dois anos na Inglaterra estudando em escolas maravilhosas - porque a família era uma família que tinha muito recurso por causa da fábrica - então ele passou dois anos estudando lá e, em 1939, quando ele estava pronto para entrar e tinha sido admitido para entrar em Oxford - que é uma escola de altíssimo nível mundial, já era naquela época continua sendo hoje - ia começar a guerra. E realmente a minha avó e meu avô pensaram: isso aqui vai ficar perigoso, além do que ele não sendo inglês, na Inglaterra, durante a guerra, tendo vindo de um lugar que tinha sido invadido pela Alemanha, não seria muito agradável. Eles resolveram vir para o Brasil. Existia uma ligação deles com o Brasil muito forte por causa dessa história de meu bisavô, que era o maior exportador de café do Brasil na época do Império, um dos maiores da época, então eles tinham propriedades aqui e vieram para o Brasil.
Meu pai chegou aqui e evidentemente quis começar a estudar, ele estava com 18, 19 anos, na hora de entrar na faculdade, e a ideia era que ele entrasse na faculdade com aquele diploma que tinha para Oxford. E aí falaram: aqui no Brasil não, esse diploma é muito bom lá para a Inglaterra, você aprende grego, latim, mas aqui você tem que saber português e quem foi Dom Pedro II. Na Inglaterra não ensinaram isso, então você vai se preparar para entrar na universidade aqui.
E ele teve dois anos de preparação para entrar na universidade. Ele atribui esses dois anos no Colégio Universitário como maravilhosos para entender o Brasil e se adaptar e depois disso ele entrou na universidade que hoje é a UFRJ, a Universidade do Brasil naquela época, e prosseguiu dali a carreira dele, ainda não pensando em carreira científica, porque a família era uma família de industriais, e meu pai estava destinado a ser o herdeiro da fábrica que meu avô tinha transplantado da Tchecoslováquia para o Brasil - se bem que não era bem um transplante, porque na Tchecoslováquia (naquela época era a Tchecoslováquia, hoje é a República Tcheca) eles faziam metalurgia e aqui ele ia fazer perfumes, trabalhando com óleos essenciais, então ele estava destinado a isso. Ainda não sabia que ia ser cientista, mas tinha que entrar na faculdade, e então se preparou dessa forma.
Tem algo que eu acho importantíssimo nessa preparação. Primeiro, como o Brasil recebeu esses refugiados judeus, como foi a adaptação. O Brasil fez, no meu modo de ver, exatamente o que tem que ser feito: abriu a porta - não muito grande, a porta que foi aberta pelo governo Vargas era pequena para entrar, não era fácil, mas quem conseguia chegar, era recebido sem preconceito, sem nenhum tipo de precondição, a não ser você se adaptar à cultura brasileira. Então você tinha que se adaptar à cultura brasileira, isso eu acho formidável, não tinha proteção nenhuma de governo nenhum, a ONU não existia e os refugiados chegaram e tinham que se virar e se viraram. Evidentemente a família do meu pai veio de uma forma muito privilegiada, porque tinha recursos, mas famílias de amigos meus que vieram sem ensino, sem recursos, sem não sei o que, a segunda geração toda foi para a universidade, ou quase toda foi. Então, o Brasil deu essa oportunidade por deixar o refugiado se virar.
Todo esse processo de chegada no Brasil e da acolhida que eles tiveram, que é não discriminar - exigir evidentemente a adaptação para não discriminar - fez com que a família desenvolvesse uma gratidão enorme pelo Brasil. A família, os meus tios que tinham sotaque carregado, nós somos “brrasileirros”, nós somos brasileiros, certo? A gente assumiu isso e a história do Otto, meu pai, é toda desenvolvida no Brasil, as plantas do Brasil, a química no Brasil, ele podia ter saído do Brasil “n” vezes, qualquer universidade do mundo o receberia, mas queria ficar no Brasil.
Então tem essa gratidão muito forte pela forma com que o Brasil o recebeu. O Brasil é um país generoso, as pessoas são generosas, a camaradagem era muito grande que ele criou com todo mundo. Ele era diferente, evidentemente, tinha um sotaque, uma vida diferente, mas ele tinha uma brasilidade muito grande.
Kristina Michahelles:
Isso é uma mensagem muito importante que você está dando para o momento do mundo que estamos vivendo hoje, e é o que a Casa Stefan Zweig, com essa pesquisa, esse podcast, inclusive, quer passar para as novas gerações, exatamente esse acolhimento e a devolução em termos de contribuição. Voltando para a história do seu pai: quando terminou a guerra em 1945, ele concluiu o curso de Química e foi trabalhar com o pai nessa fábrica de óleos essenciais que você mencionou, mas ele se chateou um pouco porque tinha que alimentar caldeiras e fazer a parte comercial da empresa, e parece que foi um aprendizado decisivo para sedimentar no cientista o interesse pelas propriedades químicas das nossas espécies nativas. Você já antecipou um pouco, mas o que pode contar mais sobre esse período?
Raul Gottlieb:
Tem muito a personalidade do meu pai, não é? O meu pai era socialmente ... não vou dizer nulo, porque fica ruim, mas muito pouco interessado em small talk. A figura que eu tenho do meu pai quando tinha festa em casa: ele sentado no sofá e cochilando, porque a conversa não interessava. Quando havia um aluno dele, qualquer coisa de química, aí sim, ele era dominante e falava. Então querer que ele, com essa personalidade dele ... Minha mãe é italiana, porque alguém na sinagoga falou: vou apresentar esse rapaz que não fala nada para essa menina que fala o tempo todo, então vai dar uma média boa. E é isso que aconteceu, deu uma média boa, o papel dele era ficar calado dentro de casa. Agora, querer pretender que essa pessoa fosse fazer a parte comercial da fábrica, não dava certo.
Mas era a ideia que meu avô tinha. Ele foi, fez e lá ele conheceu fazendo. Por essa fábrica trabalhar com esses óleos essenciais, ele começou a trabalhar, a conhecer a flora brasileira, ele se apaixonou por isso e falou, vou virar cientista. Aos 40 anos de idade ele resolveu começar a carreira científica. As pessoas começam aos, 25, 30, ele começou aos 40, saiu da fábrica, a fábrica fechou depois porque não tinha ninguém para continuar, já não estava indo muito bem, mas fechou, e ele foi fazer a carreira científica.
Evidentemente o que o motivava na vida era saber como funciona o mundo, como funciona a natureza, ele estava muito pouco interessado no futebol, aquele time de preto e branco ali ganhando do time colorido, mais ou menos assim, ele não sabia o nome dos times, a gente ia pro futebol o tempo todo, ele não tinha a mais pálida ideia. Ele tinha essa propensão e esse viés, eu não sei de onde ele tirou isso, não sei, nem ele sabe, mas ele nasceu cientista.
Leonardo Dourado:
Você me dá o gancho justamente para aí agora pegar o depoimento da professora Marise porque é sobre isso que você está encaminhando exatamente, mas antes de passar a palavra aqui para a professora Marise Maleck, eu queria ouvir dois trechinhos finais que nós temos aqui do Oto, porque é exatamente sobre isso que você está falando.
Otto Gottlieb:
As plantas conversam através de sua química, elas têm vocábulos… nós estamos estudando, a linguagem química da vegetação das plantas. Tem uma conexão com a mata amazônica, com a araucária no sul, com a Mata Atlântica no este, conexão, de modo que se o senhor arruína ou usa uma parte do Cerrado, o efeito vai se fazer sentir a longa distância, e nós temos a certeza, chegamos a essa conclusão depois de pensar um pouco, que no próximo século a razão dessa teia, dessa união de todas as plantas dos neotrópicos, esse fato que faz com que alguma coisa que só acomete contra um certo pequeno trecho se faz sentir a uma larga distância, isso é um chamado…bom, deixe-me me terminar essa frase, que essa interligação será estudada fortemente. O que que faz com que uma planta de uma região transmita seu recado a uma outra planta de uma região vizinha a grande distância, esse é um segredo que não vou revelar porque nós vamos trabalhar nele. (risos)
Kristina Michahelles:
Professora, passados agora já quase 30 anos dessa entrevista, será que já se pode desvendar esse segredo que ele não podia revelar naquela época?
Marise Maleck:
Ah sim, agora ele estaria falando sobre esses atributos metabólitos secundários das plantas que ele denominou posteriormente de metabólitos especiais pela importância que têm na interação química, nos mensageiros químicos, na interação entre os organismos, como por exemplo, planta-planta, planta-inseto, planta-micro-microrganismos. É uma linguagem química que elas nos respondem, nós não vemos, mas elas nos respondem, então ele denominou a linguagem química das plantas.
Leonardo Dourado:
Então, ouvindo a entrevista dele, o depoimento que ele deu para a Fundação Getúlio Vargas, ele cita uma quimiossistemática, parece que é um novo campo de estudos que foi criado por ele, explica um pouquinho isso para nós, professora.
Marise Maleck:
Trata-se de um sistema pioneiro de classificação botânica, baseado em perfil químico de cada planta, ou melhor, de cada família das plantas, e que revela sua função ecológica e suas interações. Por quê? Porque as plantas, têm esses metabolismos especiais como marcadores químicos baseado nas estruturas e na parte dos grupamentos químicos, por exemplo, nível de oxidação, onde estão localizados os oxigênios, na estrutura química.
Esses grupamentos nos ajudam a entender a história evolutiva e nos orientar na busca de substâncias bioativas, o que permite o desenvolvimento de medicamentos e outros produtos. Essa história vem confirmar a importância da preservação da biodiversidade. Porque se a gente quer um anti-inflamatório ou quer um inseticida, pelo perfil químico, a gente consegue buscar esses produtos bioativos.
Kristina Michahelles:
E tantas décadas atrás ele já estudava isso que hoje é motivo de disputas cada vez mais. Mas tem uma outra importante descoberta de Otto Gottlieb, da época em que ele trabalhou na Universidade Brasília e implantou lá o laboratório de Fitoquímica, sobre o efeito anti-inflamatório de substâncias encontradas em troncos de árvores chamadas de neolignanas. Então explica, professora: como essa propriedade ajudou na produção de medicamentos contra inflamações? A senhora já antecipou isso, que é um ótimo exemplo dessa coisa toda de legado científico do estrangeiro ao país que o acolheu, justamente no sentido mencionado agora há pouco pelo filho. No caso aqui estamos falando do combate à dengue, uma das doenças mais importantes, mais persistentes. O seu doutorado ampliou o alcance dessa pesquisa, não foi?
Marise Maleck:
Sim. Essas pesquisas de atividade biológica evidenciaram que essas substâncias apresentam atividades anti-inflamatórias, como a Iangambina, descrita pelo doutor Otto e outros autores, e antitumoral, principalmente a descrita pelas licarinas pelo doutor Otto. Permite que essas neolignanas sirvam de base para o desenvolvimento de vários fármacos. Nós trabalhamos a atividade biológica de lignóides, tanto de lignanas como de neolignanas, em certos vetores de doenças transmitidas para os humanos, como a doença de Chagas, através do barbeiro. E nós estudamos a Burchelina, uma família de uma laurácea que é também encontrada no louro e na canela. E foi extremamente importante, ela tem uma atividade antidiurética e antiparasitária para Trypanosoma cruzi. Posteriormente, nós começamos a estudar uma piperácea, também em parceria com a USP, com o professor Massuo, que foi a Grandezina e ela apresentou uma atividade larvicida. Nós até patenteamos essa Grandezina lá na Fiocruz. Então vocês percebem a importância dessas moléculas contra vetores de doenças principalmente tropicais onde nós estamos e também para a saúde pública.
Leonardo Dourado:
E não só na questão da saúde, porque ela citou rapidamente a questão da canela. Então tem uma interface também com a culinária.
Marise Maleck:
É, claro.
Kristina Michahelles:
Já naquele tempo o professor Gottlieb fazia o alerta ambiental para o futuro do planeta chamando a atenção para a necessidade de manutenção do entorno da floresta que é outro tema muito importante.
Marise Maleck:
Sim, quanto mais expostas as variações ambientais à competição para sobreviver elas produzem uma maior variedade de substâncias químicas. E é justamente nessas áreas que começam os desmatamentos, porque estão mais acessíveis à ação humana. Ao destruir essas regiões, perde-se não apenas as espécies vegetais, os animais, mas as moléculas que a gente às vezes ainda desconhece. Então a gente ainda não conhece toda a nossa flora, a gente não conhece todo o nosso potencial de moléculas bioativas.
Leonardo Dourado:
Que vai destruindo.
Marise Maleck:
Que vai sendo destruído.
Kristina Michahelles:
E ele tem uma frase maravilhosa sobre isso. Uma frase incrível.
Marise Maleck:
Tem, é belíssima. Ele fala que cada planta tem centenas de substâncias, e uma delas pode ser mais importante que uma galáxia.
Kristina Michahelles:
A frase resume a importância da conservação da nossa flora e da nossa biodiversidade porque a gente tem tantas plantas que não conhecemos ainda com potencialidades e ele foi na vanguarda de tudo isso. Ele, Otto Gottlieb, fez o doutorado pela Universidade Rural do Rio de Janeiro em 1966, voltando um pouquinho no tempo, e obteve a livre docência.
Participou de grupos de pesquisa no prestigiado Instituto Weizmann de Ciências de Israel, depois trabalhou na Universidade Federal de Minas Gerais, onde criou a primeira pós-graduação em Química Orgânica. Em 1967, criou o Laboratório de Química de Produtos Naturais no Instituto de Química da USP. Ele se aposentou aos 70 anos, mas não parou. Trabalhou na Fiocruz até 2002 e ainda lecionou na Universidade Federal Fluminense. Dar aulas era o que ele mais gostava de fazer.
Leonardo Dourado:
Agora Raul, aproveitando que estamos aqui na presença de uma ex-aluna dele: resgatamos aqui uma entrevista de 2011 que ele deu para Folha de São Paulo, onde ele contou que a ida dele para a Universidade Federal Fluminense foi porque na Fiocruz reclamaram que ele passava tempo demais atendendo os alunos. Ele recebia os alunos na sua biblioteca de mais de dois mil volumes, como você falou, quando ele estava entre os alunos ele estava animado. Como é que foi isso?
Raul Gottlieb:
Quando fez 70 anos ele saiu da USP, apesar de que a universidade tentou deixar ele continuar lá, mas ele não quis, porque ele queria vir para a família, para o Rio. E aí ele pegou o apartamento que ficava embaixo do apartamento em que ele morava, e lá fez o laboratório dele, que na verdade era uma biblioteca, tinha lá todos os livros dele, eu não sei se são dois mil, mas eram muitíssimos, e ele recebia as pessoas ali, então ele continuava trabalhando. E trabalhou até o momento que a saúde dele permitia, até o último momento.
Passava o dia inteiro lá recebendo as pessoas Essa história de atender muitas pessoas e os alunos, ele teve essa experiência na Inglaterra, e conta isso na biografia: “na Tchecoslováquia eu não podia falar com os professores, ok?” A educação era tal que o professor não admitia falar com aluno nenhum. Quando foi para a Inglaterra, na escola preparatória para Oxford, os alunos podiam interromper os professores a hora que quisessem e ir procurar os professores nos aposentos deles a qualquer momento e serem atendidos. Então eu acho que dali ele tirou isso, que era a forma de você efetivamente disseminar conhecimento. Quando ele estava mais idoso, ele teve Parkinson, uma doença degenerativa, ele sabia que a coisa estava indo embora, ele falava, eu tenho tanta coisa para transmitir ainda que eu preciso continuar trabalhando.
Kristina Michahelles:
Nós comentamos no início do programa sobre o Prêmio Nobel que Otto Gottlieb quase ganhou para o Brasil em três oportunidades, 1998, 1999 e no ano 2000. Foram os próprios colegas cientistas de outros países que lhe contaram que haviam indicado seu nome.
Leonardo Dourado:
É, ocorre que a Fundação Nobel mantém em confidencialidade total por 50 anos a lista de indicados e de quem indicou.
Kristina Michahelles:
Sendo assim, só conseguiremos ter certeza dessa informação a partir de 2050. O que é certo é seu legado, além de toda essa imensa contribuição para a química e formação dos alunos através das suas aulas, dos seus trabalhos, de cerca de 700 artigos científicos, ele também doou sua imensa biblioteca. Aliás, para quem, Raul?
Raul Gottlieb:
Quando ele faleceu, ficamos com aquele dilema, quer dizer, está lá o laboratório dele, o apartamento e dois mil livros de química. E aí a família resolveu doar para USP. A surpresa da minha vida é a forma como as pessoas me receberam lá porque eu era filho do “deus”, uma coisa muito engraçada, não filho do Otto, é uma coisa impressionante, eu não tinha essa noção. E lá o Dr. Massayoshi falou: a gente tentou segurar ele aqui, mas ele quis voltar para o Rio, porque falou, “fiquei muito tempo longe da minha família”. Ele saía segunda e voltava na quinta. Também esse é o segredo do casamento dele muito longevo com minha mãe, mais de 60 anos, porque ele ficava a semana inteira fora, é sempre bom pro casamento.
Kristina Michahelles:
Essa veneração enfim, à qual você se refere, é algo que ele devia ter um carisma muito grande. Professora, como foi a sua primeira aproximação com ele, lembrar essa coisa mais pessoal dele?
Marise Maleck:
Tudo começou com o meu mestrado. Quando fiz o meu mestrado na Fiocruz, o doutorado também na Fiocruz, e o pós-doc na Alemanha, no mestrado com o meu orientador lá da UFF, eu fiz parte na UFF e parte na Fiocruz, mas a parte de Fitoquímica foi feita na UFF. Então, eu isolei lignanas. E no momento que eu isolei lignanas eu me apaixonei pelas lignanas. Na hora da minha apresentação do mestrado, o meu orientador falou: vamos convidar o doutor Otto para a banca. Eu falei: meu Deus, o doutor Otto na minha banca, estou perdida! Devido à autoridade dele lá naquele momento. Aí na Fiocruz, foi no auditório, lotado, não pela minha presença, mas pela presença do doutor Otto, lógico. E aí foi muito interessante, porque ele adorou a minha dissertação de mestrado, falou que aquilo estava muito lindo, mas ele tinha que fazer algumas perguntas. Eu falei, agora chegou a hora. Um silêncio total no ambiente. E aí ele fez várias perguntas e chegou o momento que ele fez uma em especial. E eu não sabia responder e falei: “Dr. Otto, me perdoe. Eu já li todos os seus artigos, mais de mil artigos, e não sei responder”. Aí ele falou assim: “Minha filha, eu estou há mais de 40 anos estudando isso e também não sei responder.” Quer dizer, foi muito generoso da parte dele. E a partir daí, quando eu fui fazer o doutorado, eu convidei que ele fosse meu orientador.
Leonardo Dourado:
Que maravilha! Isso ilustra tudo que estamos falando até aqui nesse momento. Bom, Otto Gottlieb ganhou o título de doutor honoris causa da Universidade de Hamburgo em 1988 e o prêmio de fitoquímica dado pela Pergamon Press em 1992. Ele recusou convites para dar aulas fora do Brasil, acho que o Raul já tinha citado isso. E preferiu seguir orientando jovens talentos iniciantes em sua biblioteca na sua casa no Rio de Janeiro.
Kristina Michahelles:
Otto Gottlieb morreu em 19 de junho de 2011.
Leonardo Dourado:
Muito bem. O programa de hoje então teve pesquisa e apuração nossa e suporte do Dicionário dos Refugiados do Nazifascismo no Brasil, publicado pela Casa Stefan Zweig. Contou com a participação da bióloga Marise Maleck e do filho de Otto Gottlieb Raul, a quem nós agradecemos mais uma vez. No apoio à produção, tivemos João Maurício, no Rio, e Felipe Wolokita, em Israel. Agradecemos a ajuda da Alicia Ivanissevich e à Rede Globo pela cessão do acervo com a entrevista de Otto Gottlieb, que teve um tratamento de áudio feito pelo Ricardo Bento. As gravações e a parte técnica ficaram a cargo do Estúdio Ipiranga no Rio de Janeiro.
Kristina Michahelles:
A montagem é do Fabiano Araruna e é dele também a trilha sonora. O roteiro a quatro mãos é meu, Kristina Michahelles e de Leonardo Dourado. Ambos fizemos também a apresentação.
Leonardo Dourado:
E no site www.podcastcantodosexilados.com.br é possível ver a transcrição completa de todos os episódios das duas temporadas da série para portadores de deficiência auditiva. O design do site é da Luana Aguiar. Até a próxima.
Fim do episódio 3 - Otto Gottlieb

